
Residentes de diversas especialidades do HC passaram a atuar no Instituto Central, que cuida de pacientes com Covid-19. Eles ganham bolsa-auxílio, mas pedem contratação durante a pandemia. HC diz que médicos foram acionados com base em decreto e que estuda como reporá o tempo em que ficaram fora das especializações. Hospital das Clínicas em SP
Reprodução/Globo
Médicos residentes de diversas especialidades do Hospital das Clínicas de São Paulo estão preocupados com a convocação para aturem na linha de frente do combate ao coronavírus na unidade, que é o maior centro de referência da doença na capital paulista em número de leitos.
Eles reclamam, sobretudo, que estão expostos à doença sem os mesmos direitos dos profissionais já formados e sem estarem atuando diretamente na área onde cursam a especialização.
“Por causa da falta de profissionais no mercado e o avanço rápido da doença no estado, o HC está tirando residentes de neurocirurgia, reumatologia ou obstetrícia, por exemplo, e colocando para o atendimento direto aos pacientes da Covid-19. A gente entende que é preciso ter braço para atender os pacientes e salvar vidas, mas a gente ganha bolsa-auxílio e está sujeito a contrair a doença igualmente, sem a mesmo proteção trabalhista”, conta um desses residentes da reumatologia, deslocado para emergência de Covid-19 do hospital.
O HC afirmou, por meio de nota, que todos os profissionais de saúde estão convocados, por decreto, a atuar durante o período da pandemia nos hospitais do país. Além disso, o hospital disse que vai tentar recuperar o tempo em que os profissionais estão fora da especialização (leia mais trechos da nota abaixo).
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A preocupação maior em relação a situação trabalhista dos residentes cresceu após um dos colegas da neurocirurgia se contaminar e ficar em estado grave. O jovem é estrangeiro e está na UTI do próprio hospital, recebendo cuidados dos colegas de profissão e precisando de ventilação mecânica.
“Ele não é o primeiro residente a se contaminar. Outros residentes também já pegaram o vírus e, felizmente, conseguiram se recuperar. A nossa grande questão é, se a gente morre ou tem alguma sequela grave nesse processo, não estamos cobertos por nenhuma lei trabalhista. Nós já somos médicos formados e podemos, nesse período de crise, sermos contratados ou terceirizados como os demais”, aponta o residente, que prefere não se identificar.
Bolsa de especialização
A residência médica é uma espécie de pós-graduação, onde médicos já formados buscam uma especialização em segmentos específicos dentro da medicina. Mesmo já sendo formados, os residentes recebem uma bolsa de estudos durante o período em trabalham e se especializam.
As bolsas são de R$ 3 mil por mês, pagas pelo Ministério da Saúde ou pelo Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Por conta da pandemia do coronavírus, o Ministério da Saúde anunciou no 30 de março uma bonificação de 20% nas bolsas de todos os residentes da área de saúde do país.
O aumento representa um acréscimo de R$ 667 no valor mensal da bolsa, mas eles dizem que ainda não receberam a bonificação.
“Além de ser insuficiente para quem está na linha de frente da doença, ninguém recebeu até agora a bonificação prometida pelo governo federal, a essa altura da pandemia. O que gostaríamos é de sermos afastados durante a crise e repormos o período de afastamento com atividades da nossa residência, ou recebermos o valor de mercado pelos plantões que estamos dando pela Covid-19, uma vez que não estamos exercendo atividades de nossa residência”, afirma outro médico residente do HC, que prefere não se identificar.
“Ninguém está querendo fugir das responsabilidades. Entendemos que é um momento delicado, mas nós também precisamos de segurança, porque já somos formados e não faz sentido a gente ser deslocado pra uma especialidade que não é a que estamos estudando diretamente, sem as mesma proteções trabalhistas que os outros profissionais. Se a gente tem uma complicação mais séria, não tem convênio médico, seguro de vida ou qualquer outra estabilidade”, completa.
Profissionais de saúde cuidam de paciente com Covid-19 na UTI do Hospital das Clínicas.
Silvio Avila/AFP
Tempo de especialização
Os residentes dos HC estão atuando nas enfermarias, no pronto-socorro e nas UTIs do Hospital das Clínicas. A preocupação deles também está no período de especialização que eles estão perdendo, sem a certeza que serão repostos no futuro.
“Cada residência tem um período de especialização, que pode ir de dois a quatro anos, dependendo da área. Desde março nós fomos deslocados para a linha de frente da Covid-19 e o hospital diz que isso deve durar até agosto. Então, são cinco meses que a gente deveria estar aprendendo as técnicas da nossa área específica e não estamos. O nosso contrato de bolsa na reumatologia, por exemplo, é de dois anos. Se eu perdi cinco meses em outra área, fui prejudicado na minha formação e não tenho garantia de que lá na frente a gente vai ter esse tempo a mais pra recuperar o tempo e o conteúdo perdido”, afirma o médico.
Os residentes também afirmam que durante os plantões no Instituto Central, onde estão sendo tratados os pacientes de Covid-19 do HC, vários médicos trabalharam sem parte dos equipamentos de proteção individual (EPIs), como aventais ou luvas.
Procurada, a diretoria do Hospital das Clínicas diz que “reconhece e reitera o papel fundamental que os médicos residentes vêm tendo no enfrentamento da Covid-19 e na ajuda à população que mais precisa”. O hospital diz, porém, que não houve falta de EPIs para os profissionais durante que atuam no Instituto Central.
“Não houve nem há falta de EPI no Hospital das Clínicas, como pode ser verificado no local e em seus estoques. O HCFMUSP, por meio de seu comitê de crise, segue à disposição dos médicos residentes para quaisquer esclarecimentos”, afirma a nota do HC.
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O Hospital das Clínicas informa que todos os colaboradores que atuam no Instituto Central seguem os protocolos estabelecidos pela comissão de infecção hospitalar e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), órgão do qual a própria comissão do hospital diz que é consultora.
O HC informa também que todos os profissionais de saúde estão convocados, por decreto, a atuar durante o período da pandemia nos hospitais do País. Os médicos residentes, como parte do corpo clínico do país, estão também convocados pelo decreto nacional.
A diretoria do HC diz que vai buscar uma solução juntos aos residentes para recuperar o tempo em que eles estão fora da cadeira de especialização, mas afirma que o trabalho junto aos pacientes durante a pandemia de coronavírus é um grande aprendizado para a carreira deles.
“O HC estará junto aos médicos residentes procurando contornar ou minimizar as eventuais perdas no tempo de especialização, mas ressalta que estes médicos estão vivenciando uma experiência única em suas carreiras, de elevado conteúdo de formação profissional. Em caso de contágio por Coronavírus, todos terão seus direitos como residentes assegurados, como já acontece com outras doenças que possam acometer os profissionais”, diz a nota do hospital.
Sobre o atraso no pagamento da bonificação dos residentes de saúde, prometida pelo Ministério da Saúde, o G1 procurou o governo federal e ainda não teve retorno sobre quando serão depositados os pagamentos dos residentes.
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