
A saracura-lisa, espécie arisca que vive em matas fechadas, visitou a casa de uma veterinária da cidade. Saracura-lisa apareceu na casa de uma aposentada em São Vicente (SP).
Márcia Mestre/Arquivo Pessoal
Quando abriu a porta de casa em uma tarde de abril, a veterinária aposentada Márcia Mestre, 58, se deparou com uma visita inusitada. “Era uma ave diferente, parecia uma galinha pequena. Nem tive chance de fazer nada e ela já entrou e ficou pela cozinha”.
Como Márcia, que mora em São Vicente (SP), não possui experiência com aves, resolveu buscar ajuda para o resgate do animal. Depois de mandar uma foto da nova hóspede para o amigo e biólogo Fábio Barata descobriu mais sobre o bicho.
Era uma saracura-lisa (Amaurolimnas concolor). “Quase surtei quando recebi a foto, é muito difícil de registrar esse animal na natureza, imagina ter ele entrando em casa então. É super raro”, confessa o biólogo que conseguiu fotografar a espécie apenas uma vez em mais de 20 anos de profissão.
Eu achei muito interessante quando o Fábio postou a foto nas redes sociais dele e eu descobri que um monte de observadores de aves queriam registrar a ave que estava em casa. Eu só queria salvar ela, nem sabia que era uma espécie difícil de ser encontrada
Com a íris dos olhos em tons vermelhos intensos e uma plumagem castanha, a saracura-lisa passa maior parte do tempo escondida na mata fechada. A espécie, que mede cerca de 24 centímetros, se alimenta principalmente de pequenos invertebrados e choca quatro ovos no período de reprodução.
As saracuras-lisas são consideradas aves ariscas e difíceis de serem observadas na natureza.
Fábio Barata/Arquivo Pessoal
As saracuras-lisas são bem conhecidas pela vocalização, que lembra um assovio. Elas vocalizam pouco durante o dia, sendo mais ouvidas no amanhecer e ao entardecer.
Apesar de realizar pequenos voos na natureza, Márcia lembra que a ave pulava de um canto para o outro, mas não tentava voar. “Ela era bem arisca e ficava dando vários pulinhos pela cozinha, eu quase nem conseguia tirar foto”, relembra.
A saracura-lisa ficou apenas um dia com a aposentada Márcia Mestre até ser resgatada pelo BioPesca.
Márcia Mestre/Arquivo Pessoal
Barata explica que quando essa espécie fica assustada, tem uma tendência de se empoleirar, ou seja, de tentar subir em troncos, por exemplo, para se esconder. “Pode ser por isso que ela ficava pulando, para tentar achar algum lugar mais seguro”, explica o biólogo.
Segundo a Márcia, foram diversos telefonemas atrás de ajuda para conseguir o resgate da ave. Ela ligou para a guarda municipal, polícia ambiental e para parques ecológicos, mas não conseguiu nada.
“Até tentavam me ajudar passando mais contatos, mas não dava certo. Muitos falaram para eu soltar em parques da cidade, só que com a quarentena, tudo estava fechado”, comenta a aposentada.
Descubra outras informações sobre a saracura-lisa.
Arte TG
Finalmente, depois de várias tentativas, a associação BioPesca, de Praia Grande (SP), aceitou receber o animal e Márcia fez o transporte da ave, que ficou apenas um dia com ela.
Resgate BioPesca
O Instituto Biopesca foi criado em 1998 e até hoje funciona como uma associação civil sem fins lucrativos com o foco na conservação de espécies marinhas ameaçadas.
Em 2015, começou a executar o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), uma atividade obrigatória desenvolvida para o acompanhamento das atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos, conduzido pelo Ibama.
Desde então resgatou 5.513 animais marinhos. Entre esses, a maioria vivo para reabilitação e alguns mortos para estudos. Apesar do trabalho com animais marinhos, uma exceção foi aberta para receber a saracura-lisa.
Saracura-lisa foi levada para o centro de reabilitação do Instituto BioPesca, em Praia Grande (SP)
BioPesca/Arquivo Pessoal
“Decidimos tentar ajudar a ave, porque ninguém mais podia atender. Assim que a saracura chegou, foi levada para o centro de reabilitação e recebeu todos os tratamentos necessários, mas acabou falecendo depois de 24h”, lamentou Rodrigo Valle, médico veterinário e coordenador geral do Instituto.
Segundo Valle, a saracura-lisa apresentava sinais de fraqueza e exames indicaram que ave tinha sofrido algum trauma na cabeça, o que pode ter sido o motivo dela ter se perdido e parado na casa da veterinária.
“Fiquei triste em saber que ela não sobreviveu, mas sei que fiz o que pude para ajudar”, contou Márcia.
Uma saracura-do-mangue também foi resgatada e conseguiu voltar para a natureza depois de 18 dias de tratamento.
BioPesca/Arquivo Pessoal
Felizmente, outra saracura que foi recentemente atendida pelo instituto em parceria com a Aiuká Consultoria Ambiental conseguiu se recuperar.
“Abrimos outra exceção para uma saracura-do-mangue (Aramides mangle) que foi achada por uma pesquisadora na área urbana de Praia Grande. Ela ficou 18 dias em tratamento e reabilitação e foi devolvida a natureza”, comemora o veterinário.
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