PGR pede ao STF acesso ao vídeo de reunião ministerial com Moro e Bolsonaro

Augusto Aras também solicitou os depoimentos de três ministros que teriam testemunhado a ameaça de interferência política na PF. PGR pede ao STF acesso ao vídeo de reunião ministerial com Moro e Bolsonaro
O procurador-geral da República, Augusto Aras, quer ouvir ministros do governo e delegados da Polícia Federal, além de ter acesso ao vídeo de uma reunião no Palácio do Planalto. Os pedidos ao STF foram feitos depois do depoimento do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, na investigação sobre a suposta interferência política do presidente Bolsonaro na PF.
O documento foi enviado, nesta segunda-feira (4), ao ministro Celso de Mello, relator do inquérito no STF. Augusto Aras pediu os depoimentos de três ministros do governo Bolsonaro. Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo; Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, e Braga Netto, da Casa Civil.
Fontes confirmaram à TV Globo que, no depoimento de sábado em Curitiba, o ex-ministro Sérgio Moro disse à Polícia Federal que os três ministros testemunharam tentativas de interferência política do presidente em investigações da PF.
Além disso, o procurador-geral da República também pediu para ouvir a deputada Carla Zambelli, do PSL, aliada de Bolsonaro.
No dia 24 de abril, o Jornal Nacional revelou conversas de Moro com o presidente e com a deputada que, segundo o ex-ministro, comprovam a tentativa de interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal. Numa troca de mensagens, o presidente enviou a Moro o link de uma reportagem que diz: “PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas”, acompanhado da frase “mais um motivo para a troca”.
O presidente se referia à troca de Maurício Valeixo, então diretor-geral da Polícia Federal, indicado por Moro. Moro explicou ao presidente que todas as decisões sobre este inquérito eram do ministro do STF Alexandre de Moraes.
Da deputada Carla Zambeli, Moro recebeu uma mensagem que dizia: “Por favor, ministro, aceite o Ramagem”, em uma referência a Alexandre Ramagem, o preferido do presidente para assumir a direção-geral da PF no lugar de Valeixo, e que teve a nomeação suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes.
Em seguida, Carla Zambelli sugere na troca de mensagens que Moro aceite a indicação de Ramagem em troca de uma vaga como ministro do Supremo. Moro respondeu que não estava à venda.
Nesta segunda, o procurador Augusto Aras também pediu que sejam ouvidos seis delegados da PF, o ex-diretor-geral da PF Maurício Valeixo e o ex-superintendente do Rio, Ricardo Saadi. O cargo foi motivo do primeiro embate entre Moro e o presidente Jair Bolsonaro, ainda ano passado. O presidente queria nomear Alexandre Saraiva, superintendente do Amazonas, mas prevaleceu a indicação de Valeixo, o delegado Carlos Henrique de Oliveira e Souza para a superintendência do Rio.
Além de Saraiva e Carlos Henrique, também devem ser ouvidos: Rodrigo Teixeira, ex-superintendente da PF em Minas Gerais, exonerado após as primeiras conclusões da PF sobre o inquérito da facada em Bolsonaro, durante a campanha eleitoral de 2018, e o próprio Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro.
Aras diz, no pedido, que todos serão ouvidos “acerca de eventual patrocínio, direto ou indireto, de interesses privados do presidente da República perante o departamento de Polícia Federal visando ao provimento de cargos em comissão e a exoneração”.
A PGR solicitou, ainda, que o governo envie o vídeo de uma reunião no dia 22 de abril, no Palácio do Planalto, com Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão, além de todos os ministros e presidentes de bancos públicos.
Aras diz no pedido que o intuito do vídeo é o de confirmar a afirmação de Moro no depoimento que o primeiro Bolsonaro teria cobrado, de acordo com o ex-titular da pasta da Justiça, “a substituição do superintendente da PF no Rio, do diretor-geral e relatórios de inteligência e informação da Polícia Federal”.
Aras também pede a verificação das assinaturas do ato de exoneração de Maurício Valeixo da direção-geral da PF. Isso porque o decreto de exoneração foi publicado no Diário Oficial da União com a assinatura do então ministro da Justiça, mas, ao deixar o cargo, Sergio Moro negou ter assinado a exoneração. Horas depois, o decreto foi republicado, dessa vez sem a assinatura de Moro.
No decreto também constava a inscrição ‘a pedido’, como se Maurício Valeixo tivesse pedido demissão. Moro também negou essa informação.
Por último, a PGR quer realizar uma perícia nos dados obtidos do celular de Moro, incluindo mensagens de texto e áudio, imagens e vídeos.
Augusto Aras pediu que os depoimentos dos ministros do governo sejam marcados em um prazo de cinco dias úteis, comunicados previamente à procuradoria para acompanhamento. Aras também pediu que os delegados do Serviço de Inquéritos Especiais da PF elaborem um relatório sobre as mensagens de texto e de áudio contidas no celular de Sergio Moro. Caberá ao ministro Celso de Mello dar o aval para que as medidas sejam cumpridas.
A defesa de Sergio Moro disse ao Supremo Tribunal Federal que abre mão do sigilo do depoimento de sábado do ex-ministro à Polícia Federal. Os advogados afirmaram que querem evitar o que chamam de interpretações dissociadas a partir de trechos isolados do depoimento. O relator, ministro Celso de Mello, ainda não decidiu sobre o pedido.

By Negócio em Alta