Incêndios na Amazônia aumentam pressão sobre setor do couro
Cabeças de gado pastam perto de queimada por incêndio na Floresta Amazônica perto de Novo Progresso, Pará, Brasil, em 25 de agosto de 2019 – AFP/Arquivos

A crise na Amazônia e as ameaças do mundo da moda de boicotar produtores de couro aumentam a pressão sobre o amplo setor de peles no Brasil, enquanto as vendas começam a diminuir.

No fim de agosto, enquanto os incêndios se espalhavam na Amazônia, várias marcas de moda ameaçaram boicotar o couro nacional. A gigante H&M anunciou a suspensão de suas compras em resposta aos incêndios e sua possível ligação com a pecuária.

Segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), a empresa americana VF Corporation (VFC), dona de marcas como Timberland, Vans, The North Face e Kipling, também anunciou que suspenderá temporariamente as compras no país.

O Brasil, onde a produção de couro se expandiu com um programa de imigração lançado no século XIX para atrair colonos alemães, é atualmente o terceiro maior exportador mundial, atrás de Itália e EUA.

– Rastreabilidade difícil de comprovar –

Os vetos recentes “são volumes insignificantes, sem qualquer impacto na exportação”, garante José Fernando Bello, presidente do CICB.

Bello afirma que o país “tem todas as certificações” e “todos os selos de garantia que mostram a origem do couro que é exportado bem como as práticas sustentáveis da indústria”. Segundo ele, nos últimos 20 anos houve um salto no processo de rastreabilidade da pele e na certificação sanitária e ambiental.

Atualmente, “todo” o couro recebido pelos curtumes – os estabelecimentos onde as peles são tratadas – “vem com documentos oficiais que certificam a origem do animal”, diz.

Contudo, a afirmação não é compartilhada por outro representante do setor de couro no Brasil, Rafael Andrade, porta-voz da Certificação de Sustentabilidade do Couro Brasileiro (CSCB).

“As certificações existem” e os “curtumes estão certificados”, mas “é impossível ter uma rastreabilidade do gado, saber onde nasceu, para onde foi levado e onde foi abatido”, disse em um fórum dedicado à produção de couro ambientalmente responsável.

“Há tantos intermediários, provedores, o Brasil é grande (…). Dá para imaginar o tamanho do problema que temos”, disse.

Os incêndios na Amazônia brasileira foram causados em parte pelo processo de limpar a terra para a criação de gado.

Mas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os principais estados do couro sem curtimento foram Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, seguidos pelo Paraná e Rondônia. Desses estados, apenas o norte de Mato Grosso e Rondônia estão na Amazônia.

O CICB também argumenta que, de janeiro a junho de 2019, as exportações de couro vieram principalmente do Rio Grande do Sul, São Paulo e Goiás, fora da floresta tropical.

– Exportações e baixa qualidade –

Após alcançar 488.240 toneladas em 2014, as exportações de couro caíram a 444.640 toneladas em 2018 (-8,9%), segundo o Ministério da Economia.

Durante o mesmo período, o valor total de couro exportado caiu à metade, a a 1,44 bilhão de dólares, contra 2,94 bilhões em 2014.

Um dos motivos para isso é a qualidade das peles. “Apesar da posição de destaque no cenário mundial, o Brasil tem enfrentado problema com a qualidade das peles decorrente da falta de sinergia entre os compartimentos da cadeia produtiva”, o que leva à “ocorrência de defeitos nas peles”, alertou um relatório da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O couro nacional é de “baixa qualidade” devido à “falta de manejo das marcas provocadas pelos arames e ectoparasitas, o transporte em caminhões até os frigoríficos, o corte e os problemas de conservação das peles”, explicou à AFP Manuel Antonio Chagas Jacinto, um dos pesquisadores da Embrapa que realizou o relatório.

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